Eu juntei tanta coisa nessa minha pouca vida, mas a pior sem dúvidas foi o resto do nosso amor que ficou jogado em vários lugares de São Paulo. Te catei e guardei aqui dentro do peito, bem escondidinho de todos, te escondi naquela parte que quase nunca mexo, naquela que pouca gente já entrou, até porque tem tanto de você aqui que tive que tirar algumas coisas só pra te caber mais, só pra te caber por inteiro, só pra confirmar que você ocupa os espaços da minha vida mesmo quando já se ausentou dela.
Esses dias estava passeando pela Pinacoteca e assim do nado no meio do corredor dos fundos achei um pedaço seu, bem entre a janela e o velho extintor de incêndio, pensei em passar olhando para o outro lado e fingir que nunca te vi ali, depois pensei em te pegar de susto e te jogar da janela central, mas aí então fiz o que tenho feito sempre corri e te coloquei aqui dentro, e soquei até você ficar quietinho, sei que não sabe, mas toda vez que te acho solto por aí da um certo trabalho te colocar pra dentro de novo. O segurança notou a movimentação e veio ao meu encontro, perguntou se estava tudo bem, rezei em pensamento pra você não falar nada, não queria que ele percebesse que estava te escondendo. Sei que pra ele seria apenas mais um caso de pessoas que esquecem coisas em lugares públicos, mas ninguém precisava saber que você tinha ficado ali desde março.
Outro dia foi na cafeteria, na verdade lá é o lugar em que mais te recolho, é como se o lugar todo fosse você em sua mais brilhante essência, e não falo de apenas uma cafeteria como sendo sua, qualquer lugar que exale cheiro de café extra forte tem você, mesmo que seus pés nunca tenham pisado em algumas delas. Tenho tanto de você que até te levo pra novos lugares, e deixo eles serem mais seus do que meus. Nesse dia que fui a cafeteria da Augusta com alguns amigos, resolvi fazer tudo diferente, mudei a bebida, até o meu lugar preferido da janela deixei de lado, tudo pra vê se você não aparecia e me surpreendia. E estava dando certo até que uma amiga me pediu pra acompanha-la ao banheiro (mulheres tem dessas coisas) durante o caminho passamos por entre as velhas mesinhas de madeira, permaneci com os olhos fixos em linha reta, nada de olhar para os lados e achar algo que não gostaria de esconder. Quando chegamos na entrada dos banheiros vi aquele banquinho e lá estava você, com olhar impaciente de quem não aguenta mais me esperar verificar pela quinta vez se o coque está no lugar, respirei fundo, sentei e enquanto minha amiga estava distraída te joguei dentro da bolsa, enquanto fingia verificar a maquiagem.
Não está sendo uma tarefa fácil continuar vivendo como se não estivesse cheio aqui dentro. Ficar te recolhendo em cada esquina, travessa, avenida tem causado um grande engarrafamento, e talvez uma hora as coisas parem de funcionar e eu solte de vez a mão do volante e admito que perdi o controle algumas curvas atrás. O problema é que cê me conhece moreno, sabe que odeio perdas, ainda mais quando são as minhas, detesto ficar te recolhendo pelos caminhos da vida, mas se te deixo sinto que vou sumindo também. É como se minha vida estivesse interligada a sua. Queria saber em qual clínica clandestina você nos desfez, porque somente essas não autorizadas para desfazerem algo tão bonito, tão puro, tão sincero que agora é apenas restos, cacos, estilhaços que soco coração há dentro e que rasga a carne, sangrando ferida que só sabe jorrar.
Talvez amanhã, ou depois, quem sabe semana que vem, ou no mês seguinte eu abra mão de ficar te guardando aqui dentro, até porque não tem mais o que pôr pra fora pra te fazer ficar. Triste é saber que mesmo que eu ocupe todos os espaços do meu corpo, mesmo que ele acabe virando 70% você, porque quem precisa de água? Mesmo assim, no final do dia não é você que estará aqui no sofá da sala moreno, e infelizmente lembranças apesar de apertarem ainda não abraçam, infelizmente moreno.
Te Recolho Em Toda São Paulo (Camila Carvalho)